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domingo, 4 de outubro de 2009

Os Riscos da Informação no Rio de Janeiro



Um miliciano de camiseta preta e calça de camuflagem ajoelhou-se no banco do passageiro da frente e mirou o fuzil no meu peito, gritando. Abri a porta à minha direita com tanta força que a maçaneta saiu na minha mão. Pulei na estrada”. O relato acima é de um jornalista. Não no Rio de Janeiro, mas sim na Geórgia, país com grave instabilidade em seu poder".

A frase que você acabou de ler, do repórter Lourival Sant’anna, d’ O Estado de S. Paulo, abriu a penúltima reportagem da série “Os Riscos da Informação” que abordou os perigos do jornalismo na Rússia, região do Cáucaso. A descrição, no entanto, se encaixaria como uma luva se fosse dita por qualquer repórter que chegou a cobrir o violento cotidiano das favelas cariocas e, assim como o colega que viajou ao outro lado do mundo, também teve contato direto com a brutalidade criminal imposta ao trabalho jornalístico.

Por Fernando Galacine
galacine@jeinforma.com
editor do JE em São Paulo

Já era noite quando, não um, mas sete milicianos tocaram a campainha de uma pequena casa na favela do Batan, no dia 14 de maio do ano passado. O amontoado de cômodos encravado no meio da comunidade localizada na zona Oeste do Rio de Janeiro era o QG do jornal carioca O Dia para produção de uma reportagem sobre o poder das milícias naquela favela. Na casa, uma repórter, um fotógrafo e o motorista reuniam-se para cruzarem informações que haviam colhido durante o dia, especialmente entrevistas com moradores e fotos da ação das milícias na favela. Milícia é o nome dado a grupos geralmente formados por policiais, a maioria na ativa. Esses homens ‘defendem’ a população em dois turnos: um pago pelo governo, outro pago [à força] pela comunidade na qual eles atuam. Em suma: policiais corruptos que viram no crescente avanço do tráfico de drogas [e por consequência dos traficantes] um ótimo mercado para posarem de protetores da população: policiais com super poderes, dados por eles mesmos.

Fazendo questão de mostrarem quem de fato eram, prontos para darem voz de prisão, os sete milicianos esperavam a repórter abrir a porta.

Após descobrirem que uma equipe de jornalistas estava na favela, os milicianos não demoraram em armar uma emboscada. No final da tarde daquele quatorze de maio, os criminosos sequestraram o motorista e o fotografo que iam a uma pequena festa organizada pela comunidade. Juntamente com um morador que servia à equipe como guia da região, os dois contratados do jornal foram jogados dentro de um Polo vermelho, com identificação bem conhecida pela comunidade: ‘o carro do patrulhamento’.

Os milicianos seguiram viagem até a pequena casa aonde a repórter do jornal aguardava os colegas. Tocaram a campainha. Esperaram a jornalista abrir a porta. Fortemente armados, entram aos gritos e chutes. Começava a barbárie. Durante sete horas a equipe de O Dia foi torturada das mais diversas formas possíveis, incluindo roleta russa, seguidas de insultos e ameaças.

Após serem levados para outro local e passar por eletrificações e sufocamentos, o grupo teve seus e-mails à redação vasculhados pelos milicianos. Neles, inúmeras informações e fotos que claramente identificavam todos da quadrilha. A revolta dos milicianos aumentou. Mais tortura. Com a chegada do ‘coronel’ do bando, repórter, fotografo e motorista foram julgados. A sentença foi a salvação da equipe: a libertação, às quatro da manhã, numa das avenidas mais movimentadas da capital fluminense: a Avenida Brasil.



O episódio com a equipe do jornal O Dia, que não divulgou o nome dos seus contratados, gerou protestos a favor dos jornalistas na imprensa brasileira e internacional. Mas também gerou críticas à atitude dos repórteres e do jornal.

Desde que o jornalista Tim Lopes, da TV Globo, foi assassinado em junho de 2002 durante a produção de uma reportagem sobre os bailes funks envolvendo menores de idade nas favelas cariocas, a tensão dos repórteres que são escalados para cobrir essa área da cidade aumentou. “A morte do Tim foi um divisor de águas para os repórteres. Isso significou que o pouco respeito que os jornalistas tinham dentro de uma favela tinha terminado. Num primeiro momento houve uma reação contrária e começamos a discutir como seria feita a cobertura daquele instante em diante. Até hoje é um trauma para os repórteres” diz ao JE Informa a editora do caderno Rio do jornal O Globo, Angelina Nunes, que também é presidente da Associação de Jornalismo Investigativo, a ABRAJI e ganhou um prêmio Esso de Jornalismo pela série de reportagens “Os Brasileiros que ainda vivem na ditadura” um panorama da vida de milhares de brasileiros que por medo ou falta de alternativas acabam submetidos a ordens humilhantes de bandidos nas favelas cariocas.


Angelina Nunes [a primeira da esquerda para a direita] e equipe do jornal O Globo. Entrevistas com moradores para tarçar o cotidiano na ditadura das favelas foram feitas fora das comunidades.

O conflito que casos de violência a jornalistas criou no Rio de Janeiro é enorme. Por um lado, os repórteres que preferem não arriscar a vida por uma produção na favela. De outro, repórteres e muitas redações que acham o furo da notícia e uma audiência consolidada um compensador bem atrativo para enviarem seus jornalistas a áreas reconhecidamente reprimidas pela criminalidade. É onde justamente o debate tem seu clímax. Qual é a atitude que deve ser defendida?

O JE Informa entrou em contato com ao menos quatro veículos de comunicação, que nos últimos meses, exibiram reportagens produzidas dentro das favelas cariocas, com proximidade muito forte a assuntos ligados ao tráfico de drogas. A TV Record, a TV Globo, Bandeirantes e o SBT não responderam aos nossos contatos. O nosso foco em emissoras de televisão teve seus motivos. No que cabe aos canais abertos, o furo jornalístico na concorrência leva equipes inteiras a verdadeiras odisséias pelos morros do Rio de Janeiro.

Recentemente, o SBT protagonizou um dos momentos que podem traduzir bem esse tipo de busca pela informação na cidade. Em plena Linha Vermelha, importante via de tráfego [e de tráfico] do Rio de Janeiro, a repórter Monica Puga ficou a centímetros de balas de fuzis disparadas por traficantes em confronto direto com policiais. A reportagem ganhou destaque no principal telejornal de emissora, um dos mais importantes do país, o SBT Brasil. Conteúdo exclusivo. Prêmio que equipes jornalisticas de todos os meios de comunicação almejam exibir em suas produções quando o assunto é a violência na capital fluminense.

[Veja vídeo da matéria]



A busca pelo furo não é claramente defendida. Órgãos criados para a manutenção da imprensa observam criticamente a postura dos veículos de comunicação quanto à cobertura da violência nas favelas. O Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro já divulgou diversas vezes suas solicitações para a criação de comissões de segurança dentro das redações, mas enfrenta dificuldades: o ato é taxado como intromissão por boa parte das empresas jornalísticas.



Capas de jornal, escaladas dos telejornais da noite, manchetes dos portais de notícias. Diariamente [ou quase isso] as informações sobre a criminalidade no Rio de Janeiro surpreendem todo o país. Operações policiais, confrontos entre facções criminosas, balas e moradores perdidos em meio à barbárie. Se você não é um morador da cidade [como esse repórter também não é] provavelmente, ora ou outra, já associou boa parte do Rio de Janeiro ao caos público e à opressão da imprensa. Devemos pensar assim?


Mônica Puga, do SBT, entrevistando traficantes. Convidados que você não veria no sofá da Hebe.

Quem assistia tranquilamente ao filme que passava naquele sábado à noite no SuperCine certamente ficou atordoado com a entrada repentina do Plantão da Globo juntamente com sua assustadora trilha sonora. A interrupção dada em plena madrugada pelo jornalista César Trali, direto da redação em São Paulo, informava que um dos repórteres da emissora, Guilherme Portanova, havia sido sequestrado enquanto tomava café numa padaria próximo à sede paulistana da emissora pouco antes de gravar uma reportagem. Portanova e o auxiliar técnico da equipe, Alexandre Calado, foram abordados por integrantes supostamente ligados ao grupo criminoso PCC, Primeiro Comando da Capital, e dali foram levados para uma garagem, onde ficaram o tempo todo dentro de um carro.

No mesmo dia da abordagem o desdobramento mais importante do caso. O auxiliar técnico Alexandre Calado havia sido libertado e trazia consigo um vídeo dado pelos criminosos, momentos antes, com uma ordem expressa: exibi-lo o quanto antes pela TV, sob a pena de ter seu colega de equipe assassinado pelos sequestradores.

Dias antes, um DVD contendo as mesmas filmagens que criticavam o sistema penitenciário paulista também fora enviado para o SBT, acompanhado de uma carta anônima. Na ocasião, a emissora decidiu encaminhar o DVD ao Ministério Público. Já a TV Globo, que recebeu o material após o sequestro de sua equipe, decidiu, após consultas a órgãos internacionais de impressa que lidam com questões de ameaças terroristas, veicular o vídeo. Na noite de domingo, após outra exibição parcial das filmagens no Fantástico, Guilherme Portanova foi libertado.



Entre as dez cidades mais violentas do país, divulgadas num estudo feito em 2005 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, o Rio de Janeiro não figura. Sequer na lista restrita às capitais brasileiras o Rio aparece como a campeã na criminalidade. Metrópoles de grande porte e bem próximas à capital fluminense, como Belo Horizonte, têm índice de homicídios cerca de 1 ponto por cem mil maior nesse estudo. Já em outra pesquisa, considerando o ano de 2006, feita pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana, a Ritla, aponta que entre os municípios mais violentos do país, o Rio de Janeiro está praticamente empatado com Curitiba, cidade que geralmente não tem seus casos de violência repercutidos nacionalmente.


Garota em favela carioca, juntamente com grafite que evidencia as regras do local. Cidade é violenta, mas não difere dos índices brasileiros. / Foto: O Globo

A capital paranaense aparece apenas uma posição atrás da colega do sudeste quanto à média de homicídios entre a população. São Paulo, maior cidade do país, praticamente empata com o Rio de Janeiro na pesquisa do Ipea, mas distancia-se no estudo do Ritla, ficando com taxas bem menores, mas ainda assim consideradas altas. Em suma: apesar de ser a mais focada, a violência no Rio não chega a superar absolutamente as taxas de qualquer outra grande metrópole do país.



Para Angelina Nunes, a explicação desse tipo de abordagem no Rio se destacar das outras regiões igualmente violentas se dá pela configuração da cidade. “Pela topografia do Rio de Janeiro, as favelas estão muito próximas, na maioria dos bairros. Nas outras cidades, a violência está na periferia, longe dos grandes centros” avalia Angelina, que completa “Acho que é natural que a gente coloque o que acontece na cidade nas páginas, discuta as soluções e cobre das autoridades um posicionamento. Em BH ou SP existem organizações criminosas muito fortes, o PCC é um exemplo disso”.

Repórteres usando capacetes, coletes à prova de balas, escondendo-se atrás de barricadas ou dentro de um veículo chamado de Caveirão. Sem dúvida o trabalho da imprensa no Rio de Janeiro, em diversos pontos da cidade, ganha contornos de jornalismo de guerra. E isso difere a cidade, sim, em relação ao trabalho jornalístico em outras regiões do país. No entanto, isso só mostra o que deve ser feito para que essa violência constrangedora seja corrigida. Não para que seja ignorada ou evitada.
Sobretudo é necessário intensificar o que, de fato, o jornalismo faz de melhor: transformar a realidade, sempre positivamente. Se o foco dos veículos de alcance nacional é a violência no Rio de Janeiro, que isso sirva para objetivamente melhorar esse quesito na cidade e multiplicar o mesmo esforço para outras cidades do Brasil. Só assim a cidade do Rio de Janeiro deixará de ser calamitosa nas manchetes de jornal e, na imprensa, voltar a ser maravilhosa.

[Leia entrevista com Angelina Nunes]

[Acesse a série "Os Brasileiros que ainda vivem na Ditadura"]

Entrevista com Angelina Nunes

Entrevista com Angelina Nunes

Ela já passou por diversas redações no país, nos mais diferentes veículos de comunicação. Há quinze anos no jornal carioca O Globo, ela cooderna uma dos principais cadernos da publicação: Rio. Para falar da cidade e do trabalho da imprensa nas favelas do Rio de Janeiro, o JE Informa entrevistou Angelina Nunes que, além de dois prêmios Esso de Jornalismo, também preside a ABRAJI, Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo.

Por Fernando Galacine
galacine@jeinforma.com
editor do JE em São Paulo



JE Informa - Síndrome de Sherlock Holmes, de Super Herói... Isso, na maior parte dos casos, acontece por iniciativa de quem? Do veículo no qual o repórter trabalha ou do próprio jornalista?

Angelina Nunes - Acho que um pouco dos dois. Acontece quando o jornalista ou o chefe perdem a noção do que é um trabalho de profundidade que envolve mais pessoas. Hoje em dia a complexidade das apurações nos levam a formar equipes de profissionais com perfis diferenciados. Isso é ótimo. Uma delícia trabalhar assim, trocando informações, experiências. Infelizmente há uma cultura nas redações de competitividade ao extremo e isso leva ao culto dos Sherlocks da vida.

JE - A cidade do Rio de Janeiro não concentra números tão superiores de homicídios e outros tipos de violência do que qualquer outra metrópole brasileira, como São Paulo ou Belo Horizonte. Pra você, por que na imprensa nacional o Rio de Janeiro ganha tanto destaque no noticiário policial?


Acho que imprensa carioca não tem medo e falar dos próprios problemas, não esconde para debaixo do tapete a violência que infelizmente existe. Pela topografia da cidade do Rio de Janeiro, as favelas estão muito próximas, na maioria dos bairros. Nas outras cidades, a violência está na periferia, longe dos grandes centros. Então, acho que é natural que a gente coloque o que acontece na cidade nas páginas, discuta as soluções e cobre das autoridades um posicionamento. Em BH ou SP existem organizações criminosas muito fortes (o PCC é um exemplo disso). Acho que a pergunta é: porque a imprensa paulista e a mineira não colocam nas páginas as histórias que existem por trás das estatísticas de criminalidade?

JE - Comprar uma cobertura em áreas periféricas de grandes cidades brasileiras com uma cobertura de guerra é exagero?

Infelizmente não. Em algumas áreas da cidade vivendo um clima de guerra urbana, onde moradores são impedidos de saírem de casa, existe o toque de recolher, as pessoas são submetidas a regras específicas de grupos criminosos como não poder visitar um parente ou amigo em uma favela próxima porque a comunidade vizinha não pertence a mesma facção e são considerados alemão"(assim no singular mesmo), ou seja um inimigo. Não poder namorar um rapaz de outra favela, não poder sair a qualquer hora, isso não é uma rotina de uma cidade normal. Em algumas áreas da cidade há favelas muito violentas onde jovens morrem de balas perdidas diariamente. Os médicos nas emergências estão acostumados a atender pessoas com ferimentos de balas de alto potencial ofensivo, como nas guerras. É claro que o conceito clássico de guerra engloba outras coisas também. Então, como classificar uma cobertura policial onde o jornalista usa colete a prova de balas, carro blindado, só entra em favela no meio de uma operação policial se for num comboio ou nem entra e também discute internamente treinamento para saber como se comportar nesse tipo de situação e como avaliar o local onde fará uma reportagem. Eu diria que, infelizmente, vivemos num clima muito ruim. Apesar de algumas favelas estarem com unidades pacificadoras policiais (UPPs), ou seja, uma ocupação policial, a situação na maioria das favelas ainda não mudou e isso afeta diretamente a cobertura policial.

JE - Jornalistas que realizam coberturas em áreas sob o poder do crime dizem que não mostrar essa realidade de perto é o mesmo que aceitar uma imaginável censura imposta por criminosos, não investigando algo que precisa ser divulgado. Salientam ainda que, após a morte de Tim Lopes, a imprensa ficou ainda mais coagida. Até que ponto você concorda com essa ideia?


A morte do Tim foi um divisor de águas para os repórteres. Isso significou que o pouco respeito que os jornalistas tinham dentro de uma favela tinha terminado. Num primeiro momento houve uma reação contrária e começamos a discutir como seria feita a cobertura daquele instante em diante. Até hoje é um trauma para os repórteres. Não concordo com essa cantilena de que não mostramos a realidade. Mostramos sim. O diferencial é que agora avaliamos os riscos. Planejamos melhor a cobertura. É claro que a busca incansável pela audiência, principalmente com as televisões, mostra que os repórteres estão se expondo em demasia. Um risco desnecessário. Fingir que é alguém, tentar se misturar em favelas onde há grupos fortemente armados é loucura. Colocar um equipe dentro de uma favela sem ter um plano de escape, sem ter como fazer um resgate de emergência é arriscar o pescoço de quem está lá no meio das cobras sem defesa. Isso eu não concordo. Acho uma insensatez, ou melhor: falta de profissionalismo, amadorismo travestido de "pessoas destemidas"

JE - Jornalismo investigativo, fora de áreas consideradas críticas devido à violência, ainda gera riscos à segurança do jornalista hoje em dia? Uma jornalista como você sente-se segura para informar a sociedade sobre casos envolvendo políticos, por exemplo?

Sempre há o risco. Algumas ameaças são veladas. O que fazemos é procurar todos os meios possíveis para garantir a publicação (documentos, provas, registros) e gravar todas as entrevistas. O risco existe O que se faz é elaborar uma estratégia para minimizar o risco.

JE - Você acredita que informar siglas de organizações criminosas, ou mesmo entrevistar criminosos, presos ou em liberdade, enaltece o crime? Ouvir um traficante, por exemplo, é promover uma ‘pluralidade de opiniões’?

Durante minha vida profissional já ouvi muito bandido (comecei fazendo polícia em jornal) e realmente não me lembro de nenhum que tivesse algo a dizer que merecesse registro. Eu preciso ouvir as pessoas que são obrigadas a viver em comunidades onde a liberdade de expressão é um luxo que elas não têm direito. Prefiro ouvir as vítimas da violência e denunciar os abusos seja de bandidos ou autoridades.
A questão das siglas e facções é discutível. Cada veículo tem uma norma. O que realmente irrita são os apelidos dos bandidos m tal de inho para cá, inho pra lá. Sempre no diminutivo, como se fosse uma coisa carinhosa. Um desses inhos da bandidagem tinha matado mais de 30 pessoas, muitas crianças.


JE - Traficantes. Milicianos. Pra você, há diferenças entre esses dois tipos de poder em relação à sociedade? A imprensa faz distinção entre eles?

A imprensa faz distinção porque um tem a arma e a farda (estando na ativa ou não) e age como bandido, mas se organiza como empresa para explorar serviços nas favelas e ganhar rios de dinheiro. Esse tipo de atividade e atitude é típica da milícia, que diversifica os negócios Já os traficantes, em geral, se concentram na venda da droga, que já tem seu alto risco e nem tanto lucro como a milícial Tanto é assim que agora alguns traficantes estão também explorando serviços que a milícia fazia. Mas é bom lembrar que os dois são bandidos . Merecem ser presos e punidos pela justiça

JE - Na época dos Jogos Pan-Americanos os relatos de violência no Rio de Janeiro diminuíram. O que aconteceu, em sua opinião? A polícia agiu mais firmemente no período e a criminalidade, de fato, retrocedeu, ou a mídia decidiu não destacar o assunto?

Havia realmente um reforço maior na segurança, mais policiais. Percebo que isso acontece sempre que há um grande evento (visita de presidente , por exemplo. Aposto que em qualquer cidade os dias que antecedem a visita são dias de "faxina" social: retiram-se mendigos, camelôs e o policiamento é reforçado..

JE - O que mais lhe chamou a atenção durante a produção da série “Os brasileiros que ainda vivem na ditadura”? Houve algum aprendizado mais marcante?

As histórias eram chocantes e, mesmo sabendo o que acontece nas favelas dominadas por grupos organizados de criminalidade, cada dia era angustiante. Poder mostrar isso, que pessoas ainda viviam e vivem sem ter os direitos básicos garantidos foi gratificante. Trabalhar em equipe também me fez muito bem, conhecer novos parceiros para dividir matérias, ouvir pessoas, aceitar sugestões... Foi uma escola.

JE - A mídia, em conjunto com a sociedade, pode finalizar a violência? É algo alcançável? Ou minimizar é o que, por ora, pode ser feito?

Finalizar como? Acabar? Acho que a sociedade, as autoridades, a mídia podem discutir caminhos para reduzir a criminalidade nas cidades Acabar a violência é algo que não acredito. Isso depende do ser humano. Sempre houve violência em menor ou maior grau. Cada um fazendo sua parte já ajuda e muito.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009



[] Leia a quarta reportagem da série

[] Leia a entrevista na íntegra com Marcelo Torres

[]Assista ao vídeo com o perfil do entrevistado








[]Leia a terceira reportagem da série

[]Leia a entrevista na íntegra com Ana Paula Padrão

[]Assista ao vídeo com o perfil da entrevistada











[]Leia a segunda reportagem da série

[]Leia a entrevista na íntegra com Adriana Carranca

[]Assista ao vídeo com o perfil da entrevistada










[]Leia a apresentação da série

[]Leia a reportagem

[]Entrevista na íntegra com Marcos Losekann

[]Entrevista na íntegra com Carlos Reiss

[]Assista ao vídeo com os perfis dos entrevistados



Os Riscos da Informação na Rússia



Rússia - um país repleto de contrastes. Sua população viveu a era imperialista em que os czares dominavam tudo conforme a vontade própria; a era comunista em que a liberdade de expressão era tão reprimida quanto; e atualmente vivencia o capitalismo em suas mais variadas nuances: a desigualdade social prevalece sem que as pessoas tenham alternativas concretas no que concerne a uma maior possibilidade de mudança.
Os ricos da informação num país em que morrem jornalistas sem que se façam investigações e, portanto, ninguém é punido é o que você passa a conhecer agora.

Por Egnaldo Lopes
egnaldo@jeinforma.com
editor do JE em Goiânia


“Um miliciano de camiseta preta e calça de camuflagem ajoelhou-se no banco do passageiro da frente e mirou o fuzil no meu peito, gritando. Abri a porta à minha direita com tanta força que a maçaneta saiu na minha mão. Pulei na estrada”. Este é o relado do jornalista Lourival Sant’Anna, publicado no jornal O Estado de São Paulo ao tentar escapar de um confronto entre os militares da Rússia e da Geórgia que aconteceu durante a guerra entre os mesmos em agosto do ano passado quando o governo georgiano decidiu lutar para resgatar o território da Ossétia do Sul, uma província separatista que, com apoio russo, resistiu aos ataques, o que resultou em centenas de mortes de todos os lados.

Lourival foi, inclusive, preso e interrogado na Ossétia do Sul. Esta desavença já dura muito tempo e tem momentos de conflitos armados, com a interferência do ocidente, categoricamente representado pelo apoio dos Estados Unidos à Geórgia, o que transparece sem dúvida, a eterna ‘rixa’ entre a Rússia e o país do Tio Sam.

É neste emaranhado de províncias, territórios e cidades federais que se estabeleceu uma política atual de busca por maior acessibilidade da população aos bens de consumo, tendo em vista o crescimento econômico dos últimos anos, e pelo melhor bem-estar para a população economicamente ativa; mas que ao mesmo tempo restringe manifestações populares, por exemplo, já que este não é um direito inerente a qualquer cidadão que queira reclamar das ações do governo. Para se manifestar, é preciso autorização.


Jornalista Lourival Sant’Anna sendo levado para da Ossétia do Sul após ser preso e interrogado.

A população vive em um estado de submissão quase que completa em relação às ordens governamentais personificadas modernamente na figura de Vladimir Putin, o atual primeiro-ministro que tem tudo pra permanecer no poder por tempo indefinido, exercendo sua influência direta inclusive na eleição dos próximos presidentes da Rússia como aconteceu com o atual, Dmitri Medvedev, nas últimas eleições presidenciais em que até as prerrogativas dos cargos de presidente e primeiro-ministro foram alteradas para possibilitar a continuação do poder nas mãos de Putin, líder russo que veio da polícia investigativa controlada pelo governo, a KGB (Comitê de Segurança do Estado), lugar em que aprendeu as suas mais variadas técnicas de governabilidade ditada pelo militarismo fortificado e repressor.



Hoje, não há guerra ostensiva em território russo e é neste cenário que o jornalista brasileiro, Marcelo Torres, correspondente internacional do SBT na Inglaterra – frequentemente escalado para fazer reportagens especiais nos mais variados lugares do planeta – encontrou um país em que não se vê nas grandes cidades uma repressão tão descarada por parte do governo, mesmo porque a população não demonstra sinais de descontentamento e a criticidade da imprensa local é praticamente inativa: “Há jornais críticos ao governo e eles são "permitidos", mas, só no Novaya Gazeta, cinco foram assassinados nos últimos anos sem que o governo tenha se empenhado muito em esclarecer os casos. O governo também se esmerou em aumentar a influência em todos os canais de televisão e controla, além disso, os governos estaduais, que não são eleitos pelo voto do povo.

Assim, as tevês regionais também acabam por seguir a linha do governo central. Existe jornalismo crítico, mas ele ficou acuado num canto.”, conta o jornalista em entrevista exclusiva ao JE Informa, feita por e-mail.

Anna Politkovskaya é uma destas jornalistas do Novaya Gazeta: morta após fazer uma série de duras críticas ao governo russo. A jornalista mostrava as dificuldades sofridas pela população e denunciando abusos cometidos pelos militares russos durante os diversos conflitos armados dos quais fez a cobertura jornalística. Foi presa durante a guerra da Tchetchênia em 1999; misteriosamente envenenada em 2004 e morta dois anos depois, quando chegava em casa após um dia de trabalho. As investigações não chegaram a lugar algum, mesmo porque assim não poderiam, sob ordens de quem detém o poder na Rússia.

Hoje há um prêmio que leva o nome da jornalista para homenagear profissionais que merecem destaque pelo posicionamento comprometido com a verdade dos fatos e recentemente foi recebido por Natalya Estemirova, ex-colega de Politkovskaya, morta em julho deste ano na Tchetchênia, uma das Repúblicas da Federação Russa, quando investigava planos de milícias para incendiar casas de civis. O ‘Memorial’, grupo russo de defesa dos direitos humanos, pra quem ela trabalhava no caso, culpa o governo.

Foi investigando a morte de Anna Politkovskaya que o ex-tenente da KGB e por último escritor e jornalista, Alexsander Litvinenko, opositor de Putin, também foi assassinado através de envenenamento com Polônio-210, um material radioativo que fez com que fosse definhando e agonizando até a morte.


Os jornalistas Anna Politkovskaya e Alexsander Litvinenko, assassinados após criticas ao governo Putin.

Investigação novamente não faz parte do vocabulário do Serviço de Segurança da Federação Russa, o FSB, que assumiu as principais atribuições da antiga KGB, extinta com o fim da URSS. O poderio militar que o país, economicamente dependente das exportações de petróleo, encontra receita também na venda de produtos que vão abastecer o conflito armado em todo o planeta, sem distinção de nações através de uma padronização recomendada pelos organismos internacionais; o que vale é o lucro e a solidificação da união com países necessitados de produtos que a Rússia pode fornecer, independentemente de questões morais ou humanitárias. É a busca cada vez mais intensa em se distanciar do poderio dos Estados Unidos no mundo.



Estas questões ficam restritas mais à imprensa internacional, mas a população russa sabe o caminho que o governo decide tomar. Reflexo do governo socialista, os russos são praticamente todos alfabetizados; o país tem um dos centros de cultura mais importante do mundo, o Teatro de Bolshoi. O povo da Federação Russa abre mão de certa liberdade em troca das melhorias trazidas pelo governo; é uma conivência em relação aos atos do governo frente aos que tentam reportar os fatos, mesmo que sejam relativos a abusos cometidos em detrimento à própria população.

Não foi sempre assim, mas no momento em que a população tentou se fazer ouvida, o resultado foram várias mortes: o czar Nicolau II, em São Petersburgo não permitiu manifestações populares, culminando no chamado “domingo sangrento” em que várias pessoas foram mortas ao reivindicar melhores condições de vida e trabalho, mas foi este um dos fatos mais simbólicos na representação da mudança para um governo socialista, com a queda do imperialismo. A questão é que, na União Soviética de Lenin a situação de miséria e desigualdade social persistiu com a ascensão de Stalin que controlava a tudo e a todos.

Do império ao capitalismo: mazelas sociais e falta de liberdade de expressão.

Nicolau II, o último czar Lenin Stalin Iéltsin Putin, o primeiro-ministro militar

O irreverente Boris Iéltsin, primeiro presidente da era pós-socialista, iniciou um trabalho de privatizações extremamente mal feito, vendendo todas as empresas estatais a preço bem abaixo do valor real: as mazelas sociais persistiram. Putin dá inicio a uma política de dar aos russos o poder de consumo de bens e produtos dos mais variados aspectos: é o fascínio exercido pelo capitalismo numa sociedade ainda acostumada a sofrer as constantes mudanças de sistemas governamentais. “‘O Putin põe comida na mesa’, foi o que eu ouvi de muitos. O povo russo passou por tantas décadas de repressão que parece ter desaprendido a criticar o governo. Muitos estão desencantados, desanimados, acham que não adianta protestar. É um povo que aprendeu a ser pragmático.”, acrescenta Marcelo Torres.


Marcelo Torres e a tradutora Ekaterina Kopteva, em Moscou/ Arquivo Pessoal

A ida, em junho deste ano, do correspondente do SBT à Rússia, com o repórter cinematográfico Azul Serra, foi para a realização da série de reportagens denominada ‘Diário Russo’ em que pôde constatar que as coisas não permanecem inalteradas: neste ano, o crescimento do PIB do país não vai se fazer presente e isso pode sim significar uma queda da popularidade de Putin, muito embora ele ainda tenha muito do que se vangloriar, já que a maioria absoluta da população ainda o apóia e há muito o que ser desgastado para uma eventual reação do povo, mesmo porque todo o mundo sofre recessão em decorrência da crise econômica mundial.

A série de reportagens do jornalista brasileiro mostrou a realidade de um país ainda em processo de adaptação aos novos ares: “Obviamente, é um país com muitas máfias também. Muitas a serviços de políticos. Esse é um cuidado a ser sempre levado em consideração.”, conta Torres.


Marcelo Torres em Ecateremburgo: ao fundo, a ‘Igreja de Sangue’, local em que foi morta a família do último czar russo, Nicolau II. / Arquivo Pessoal


A potência emergente que com o Brasil, a Índia e a China, forma o BRIC, cresce e mostra estar concentrada nas mãos de um homem só: um militar frio e voltado à um plano político e militar que garanta sua continuidade no poder e por/para isso exerce o controle absoluto dos mecanismos que acredite serem importantes e estratégicos, numa demonstração de que há poder globalizado que não emane apenas da ainda maior potência econômica mundial. Democracia? Marcelo Torres responde: “A Rússia é um país de democracia intermediária. Não é tão democrático quanto o Brasil nem tão ditatorial quanto a China. Acho que se fôssemos fazer uma escala de democracia nos Brics, pela ordem, teríamos: Brasil, Índica, Rússia e China. Seriam os Birc.”.

É neste cenário que jornalistas buscam reportar os fatos. Não há neste país uma ideologia bem definida, com uma imposição e vigília constante do governo, como acontece na Coreia do Norte, pois o governante sabe que não precisa se deslocar muito para se fazer ser ouvido e a população sabe que precisa apenas se submeter a tais determinações para que possam ter o gozo imediato das particularidades do mundo contemporâneo e globalizado: basta não incomodar o governo, e assim faz também a maioria dos profissionais locais, já que são controlados por Putin, inclusive.



Seja como jornalista ou como cidadão, o governo russo dificilmente irá perturbar ou interferir, mesmo porque não há uma preocupação em se esconder tudo dos russos ou mesmo do mundo, mas não queira atrapalhar os seus planos, colocando empecilhos ao se divulgar o que se é feito de forma velada: reputação não é exatamente o que se quer, mas sim a governabilidade cada vez maior e Putin sabe que isso depende de certa aceitação por parte dos outros países, num mundo globalizado em que o jogo de interesses predomina.

+ Conteúdo
[] Leia a entrevista na íntegra com Marcelo Torres

[] Assista ao vídeo com o perfil do entrevistado



[] Leia o relato de Lourival Sant'Anna no Estadão

[] Leia o Blog do Jornalista Marcelo Torres

domingo, 30 de agosto de 2009



Ele está em todos os lugares. Sua bondade é infinita e sua Justiça é suprema. Foi ele quem criou a vida como a conhecem e estará eternamente vivo no coração de todos. Onipresente, soberano e eterno. Em suma: o Criador. Da vida? Não, da República Popular Democrática da Coreia.

Por Fernando Galacine
galacine@jeinforma.com
Editor do JE, em São Paulo

A descrição acima remete quase automaticamente à divindade e é desse jeito que os norte-coreanos descrevem, com o mais absoluto fervor, quem para eles é verdadeiramente um deus. Kim Il-Sung, ex-chefe de governo da Coreia do Norte, morto há quinze anos, é um dos exemplos mais bem acabados de como décadas de alienação informativa perante toda uma população podem contribuir para a extinção de inúmeros avanços da sociedade, entre eles o trabalho da imprensa.

Isolados na metade de uma pequena península do extremo Oriente, pouco mais de 20 milhões de pessoas cultivam uma idolatria descomedida pelo seu ex-representante político. Nas ruas de Pyongyang, capital do país, outdoors, monumentos e obras majestosas retratam o louvor dos norte-coreanos à figura de Il-Sung, carinhosamente chamado de ‘Grande Líder’. Tal situação causa estranheza para praticamente toda a sociedade que não viva naquele pequeno país asiático, mas tamanha devoção a Kim Il-Sung pode ser explicada basicamente por dois bons motivos.

O primeiro é o sistema político implementado na Coreia do Norte há quase 50 anos por Il-Sung: a ideologia Juche (pronuncia-se choo-chay) algo correspondente à autoconfiança, em coreano.



O Juche, ou se preferir kimilsonguismo, foi o modelo de administração do governo de Kim Il-Sung. Quando conquistou a liderança da parte norte da recente divisão da Coreia com a ajuda dos soviéticos, o Great Leader solidificou aos poucos o sistema que derivou do confucionismo chinês e do socialismo stalinista autoritário.

Na ideologia Juche, o país é fruto da união de todos os seus habitantes, o que faz a nação ser suficiente em todos os setores, não dependendo de ajuda de qualquer outra nação. [mais adiante você vai notar que não foi bem isso o que aconteceu no país] Outro ponto importante desse sistema é o culto à personalidade do líder dessa nação, no caso Il-Sung, presente em todos os setores da sociedade como escolas, instituições ligadas à arte, à propaganda e ao comércio, todas convertidas a órgãos públicos. O conceito foi administrado aos poucos perante toda a população norte-coreana até consolidar-se na década de 70.


Equipe de televisão espanhola nas ruas de Pyongyang; Concessões para a imprensa entrar na Coreia do Norte são raras; Maior parte dos jornalistas entram como turistas.

Na administração de Kim Il-Sung, a Coreia do Norte era realmente um dos melhores países do mundo quanto à infraestrutura e, relativamente, à qualidade de vida. Il-Sung contava com o fortíssimo apoio dos soviéticos, os verdadeiros responsáveis pela estabilidade econômica do país. Isso ia contra a ideia de autossuficiência pregada pela ideologia Juche, mas garantia a boa reputação do governo norte-coreano perante o povo. Confirmando, assim, o sucesso daquele modo de governar e, principalmente, do modo de retribuição da sociedade norte-coreana pela tal bonança ao bom líder. Com base nisso, é fácil entender um dos motivos que levaram e levam o povo da Coreia do Norte admirar tanto Il-Sung. Porém, como todos os países comunistas que dependiam da ajuda vinda da URSS, com a quebra do sistema pela crise do modelo e pela alta do preço do petróleo, a Coreia do Norte caminhava pouco a pouco rumo ao descontrole. A situação foi piorando na década de 80 e ia em direção ao nível mais crítico em meados da década seguinte, a de 90, quando Il-Sung morreu.

Entra aí o segundo motivo que leva a idolatria desenfreada a Kim Il-Sung. Quando o seu filho mais novo assumiu o poder do país, em 1994, a bancarrota do sistema norte-coreano já acontecia, embora não explicitamente. Para o colapso econômico atingir nitidamente a população da Coreia do Norte, levando milhares a morrer de fome, foi questão de meses. Mal informados sobre a situação que o país vivia, os norte-coreanos relacionaram a troca de poder à piora no nível de vida. Diante disso, não é difícil entender porque os norte-coreanos estimam tanto Kim Il-Sung. Kim Jong-Il, atual líder do principal partido do país, não pôde fazer muita coisa quando assumiu o cargo paterno. E até o que poderia, Jong-il não fez: preferiu gastar as poucas reservas financeiras do país em desenvolvimento bélico, visando respeito internacional, e em uso próprio, tornando-se famoso não só pela ameaça que hora ou outra representa ao planeta, como também pelas suas excentricidades, parte delas herdadas do querido papai.



O culto à personalidade na Coreia do Norte, como você acabou de ler, vem da ideologia Juche, mas pode ser encontrada em várias partes da história, com diferentes nomes e em diferentes níveis. Populismo, na América Latina; o Führer na Alemanha Nazista; o absolutismo monárquico na Europa medieval. Todos com sua particularidade, mas sempre focados no culto à imagem do líder. Kim Jong-Il percebeu muito rapidamente que apesar do modelo Juche estar muito arraigado à população norte-coreana, não era ele o líder que a sociedade do país reverenciaria. Com isso, o atual líder da Coreia do Norte soube muito bem manter a imagem de seu pai viva, usufruindo muitíssimo bem da premissa de ser o filho do Grande Líder. Papai Il-Sung é, mesmo morto, acredite, o presidente da Coreia do Norte. Kim Jong-Il é apenas o dirigente, apelidado com o blasé ‘Estimado Líder’.



Justamente nos esforços para manter a imagem de Kim Il-Sung viva é que Kim Jong-Il torna-se uma verdadeira ameaça à imprensa local e estrangeira. No país asiático, essa ameaça toma diversas proporções que vão da mais alta periculosidade a situações que beiram o bizarro.


Turismo bizarro. Pacotes para quem estiver interessado em passear pela Coreia do Norte: a Disneylândia de Stalin.

Existe imprensa na Coreia do Norte, mas não há pluralidade de opiniões: ela é toda comandada pelo governo. Canais de televisão que transmitem programação apenas no período da noite, revistas, jornais, algumas emissoras de rádio e até um pequeno portal na internet [sediado em um centro de internet do Japão] são todos administrados por Pyongyang. O material publicado pela mídia norte-coreana nem chega a ser censurado: ele já sai de fábrica resumindo-se à cobertura da agenda e das posições adotadas pelo governo, geralmente falando mal dos Estados Unidos, Europa e alguns vizinhos asiáticos, em miúdos, de quase o mundo inteiro. Em visita à Coreia do Norte no começo do ano passado, Christiane Amanpour, jornalista da rede de TV norte-americana CNN, teve a oportunidade  - rara, diga-se - de conversar rapidamente com uma jovem norte-coreana no metrô em Pyongyang. Segundo a jornalista, as meninas lhe disseram que "os americanos são nossos inimigos. Se eles abandonassem suas posições hostis ao nosso país, seríamos mais acolhedoras”.



Como existe imprensa na Coreia do Norte, é por certo que existam jornalistas. Mas a profissão na Coreia do Norte beira ao partidarismo. É obrigatória para o exercício da carreira a filiação ao Partido dos Trabalhadores, [sem trocadilhos...] bancada de situação do país e presidido por Kim Jong-Il. Não à toa, a Coreia do Norte foi eleita por quatro anos consecutivos pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas como o país com a pior liberdade de imprensa do mundo, entre 2002 e 2006. Hoje, a Coreia do Norte ocupa a penúltima posição, ficando à frente apenas da Eritreia, um pequeno e jovem país africano.

Fora isso, jornalistas na Coreia do Norte noticiam o que chaga a eles. E, convenhamos, não se obtém muitas informações ou furos jornalísticos tendo acesso a apenas uma montanha de releases e documentos tendenciosos em prol do governo de Pyongyang. Na Coreia do Norte não há restrições no uso da internet, como acontece, por exemplo, na China. Na Coreia do Norte simplesmente não há acesso a rede. O país sequer tem conexão com cabos submarinos internacionais. O acesso à web utilizada no país, de uso exclusivo do alto escalão do governo, vem pelo satélite. Ponto para o país de Kim Jong-Il na lista os inimigos da internet no mundo, produzida pela organização Repórteres Sem Fronteiras.



Kim Jong-Il dispõe barreiras quase intransponíveis para o acesso à informação externa pela população norte-coreana e faz isso com o claro objetivo: manter as aparências de seu governo como um verdadeiro paraíso na Terra, do qual os norte-coreanos não encontrarão melhor se saírem de lá. Como sabe que não pode provar isso, Jong-Il utiliza-se de duas premissas básicas. A primeira, como você acabou de ler, é cortar todo o tipo de o acesso a informações vindas de fora, literalmente “Não há acesso a qualquer tipo de informação que não passe pelo filtro do governo. Até mesmo o dial dos rádios vem fixado numa única estação. Fixado para você nem sequer conseguir tentar sintonizar uma rádio de ondas curtas que poderia captar algum sinal de fora do país”, conta Ana Paula Padrão, a primeira jornalista brasileira a entrar na Coreia do Norte, ao JE Informa.

Com o bloqueio do que se passa fora da área norte da Península Coreana, o governo molda a informação que chega à sociedade com a forma que ele quiser. Assim, como os Estados Unidos são pintados como a personificação de todo o mal que oprime a Coreia do Norte, os vizinhos sul-coreanos também não escapam. “A Coreia do Sul para os norte-coreanos, por exemplo, é um lugar onde só há quadrilhas, gângsteres, prostitutas... Todo mundo que vai para lá é obrigado a se prostituir...” comenta Ana Paula. Com boas doses de lavagem cerebral e desinformação veiculada pelo governo, a maior parte dos norte-coreanos acredita que, mesmo com dificuldades, vivam num lugar bom e próspero. Ao menos acreditavam.


Ana Paula Padrão e militar norte-coreano, em 2005 / Arquivo Pessoal

Ser jornalista na Coreia do Norte é uma profissão de risco. Como lidam com a informação, um dos pontos mais sagrados do governo de Jong-Il, a categoria é uma das mais vigiadas do país. Um deslize e são eles os prediletos, juntamente com inimigos do governo, a irem para um dos seis campos de concentração no interior do país, todos com o regime de trabalho forçado, herança nítida da era socialista soviética. Estima-se que a população que viva nesses campos some quase 150 mil pessoas, a maioria presa por ser contra o comando do país.

Foi para um desses campos que duas jornalistas norte-americanas foram recentemente levadas, e posteriormente libertas, num caso que mobilizou a diplomacia e a imprensa internacional. Laura Ling, de 32 anos, e Euna Lee, de 36, ambas de uma rede de TV online da Califórnia, a Current TV, foram presas na fronteira da Coreia do Norte com a China, em meados de março. Acusadas de terem invadido o território norte-coreano e praticar atos hostis contra a Coreia do Norte, Laura e Euna foram capturadas e condenadas a doze anos de trabalhos forçados. As jornalistas foram salvas, no começo de agosto, quando o ex-presidente norte-americano Bill Clinton viajou, de surpresa, à Coreia do Norte e reuniu-se com Kim Jong-Il que concedeu o perdão às duas repórteres. A discussão em torno da prisão de Laura e Euna foi a possibilidade de as jornalistas servirem como moeda de troca para a Coreia do Norte em meio à crise diplomática que distanciou o país de órgãos internacionais, como a ONU, em meio a teste nucleares no começo do ano. Não há confirmações, mas especula-se que oficialmente as jornalistas estavam ainda em território chinês quando foram detidas pela guarda norte-coreana.


Laura Ling e Euna Lee; Alguns meses num campo de trabalho forçado na Coreia do Norte

Laura e Euna produziam na região da fronteira uma reportagem sobre fugitivos do governo de Kim Jong-Il. A Coreia do Norte faz divisões territoriais com apenas dois países: a China e a Coreia do Sul. Com esse último, pela guerra que as duas nações já se envolveram e pelo fato de não estarem oficialmente em acordo de paz, a fronteira é vigiadíssima pelos exércitos norte e sul coreanos, diferentemente da região de fronteira com a China. Predominantemente desértica, embora tenha em sua maior extensão cercas e arames farpados, a região não detém com muita eficácia quem consegue chegar até aquele ponto do território da Coreia do Norte. [Para deslocar-se pelo país, de cidade em cidade, é preciso autorização do governo]. Assim, todos os que conseguem fugir do país o fazem cruzando a fronteira com a China.

Pela mesma fronteira, além de pessoas, passam cargas incomensuráveis de produtos contrabandeados, sejam eles com conhecimento das autoridades norte-coreanas, facilmente corruptíveis, ou não. Produtos eletrônicos, entre eles celulares, proibidos com pena capital na Coreia do Norte. Com esses aparelhos, alguns equipados com câmeras, é possível fazer pequenas filmagens sobre o que acontece no país. São poucos os norte-coreanos que aceitam correr o risco, não só pela relativa rigidez do sistema, - que lucra com a venda desses aparelhos, embora oficialmente não os permita - mas também pela situação delicada na qual vivem. Formada praticamente por camponeses, a população norte-coreana vive com o fantasma da fome por quase toda a vida. Junte isso a uma alienação mental e você terá um povo desencorajado a quase tudo. “É complicado explicar essa população. Os guias quando nos levavam para comer, em restaurantes sempre vazios, comiam feito desesperados. Eles agarravam aquela chance de nos levar para almoçar e jantar como uma oportunidade para alimentarem-se bem” conta Ana Paula, lembrando dos poucos habitantes norte-coreanos com os quais teve contato: os seus guias.

Apesar do endeusamento descomedido de Kim Il-Sung, a situação para a imprensa restrita na Coreia do Norte parece cada dia mais insustentável. Nitidamente caindo de grau em grau, as referências como ‘Eterno’ e ‘Estimado Líder’ parecem não comportarem mais uma no louvor da sociedade da Coreia do Norte. Pior: desde o começo da década chegam a toda hora aos norte-coreanos rumores que Kim Jong-Il está morto. Situação que aconteceu ao menos cinco vezes, todas desmentidas pelo governo em Pyongyang e que, ao fundo estavam corretas, mas ilustram que independentemente de serem especulações de órgãos de inteligência internacionais, a população da Coreia do Norte também criou coragem para comentar tal tipo de assunto nas ruas, embora meio que desencontradamente. Com base nesses acontecimentos analistas internacionais afirmam que um sucessor de Kim Jong-Il [possivelmente seu filho mais novo, que teria sido escolhido em junho desse ano] não terá condições de manter a ‘consideração’ dos norte-coreanos em relação aos descendentes de Il-Sung no poder. Se o processo democrático de fato virar prática na Coreia do Norte - sim, na teoria a Coreia do Norte é uma democracia -  as chances do trabalho da imprensa melhorar crescem consideravelmente. Quer Il-Sung queira ou não.

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[]Leia Entrevista na íntegra com Ana Paula Padrão

[] Assista ao vídeo com o perfil da entrevistada

quinta-feira, 20 de agosto de 2009



[]Leia a segunda reportagem da série

[]Leia a entrevista na íntegra com Adriana Carranca

[]Assista ao vídeo com o perfil da entrevistada








[]Leia a apresentação da série

[]Leia a reportagem

[]Entrevista na íntegra com Marcos Losekann

[]Entrevista na íntegra com Carlos Reiss

[]Assista ao vídeo com os perfis dos entrevistados



30 anos de guerra civil após a invasão soviética: o Afeganistão é uma terra em que a violência ainda se faz presente e o medo é presença marcante em todos os que ali permaneçam, sejam eles os próprios afegãos ou profissionais encarregados de compartilhar com o mundo suas impressões em relação aos fatos e aos acontecimentos constantes, que acabam se limitando à exploração de métodos bárbaros na busca pela ascensão no poder.

Por Egnaldo Lopes
editor do JE em Goiânia

Independente do dito fundamentalismo religioso ou de qualquer outro rótulo que coloquem para definir ou justificar a miséria e a violência naquele país, a realidade de vivenciar ataques, seqüestros e o medo, essencialmente, é uma experiência, sobretudo, única e, portanto, merecedora de destaque e discussões. Poucos jornalistas brasileiros se aventuraram a cobrir a guerra civil que acontece no Afeganistão durante todos estes anos, mas a recente visita de Adriana Carranca, do jornal Estado de S. Paulo, no fim de 2008 pode ser referência do quanto vem se tornando difícil a transmissão da notícia em determinadas partes do mundo em que a mulher, inclusive, sofre reprimendas comportamentais que dificultam o trabalho jornalístico.

O desafio de desenvolver um trabalho num lugar como este, em que as características da democracia não são nem de longe perceptíveis foi idéia da própria jornalista disposta a conhecer de perto a realidade dos afegãos para transmitir à sociedade os fatos, dando enfoque aos direitos humanos e toda a problemática social que envolve aquela região do planeta. Mestre em políticas sociais pela London School of Economics, Adriana fala com o entusiasmo de quem quer compartilhar informações em todas as vezes que dá entrevistas relacionadas à sua ida ao Afeganistão, pois passa com riqueza de detalhes os acontecimentos e as características mais pertinentes à análise dos fatos.

As dificuldades de reportá-los não é novidade, já que recentemente foi também ao Irã, o que rendeu um caderno no Estadão. Aliás, há um especial no portal do jornal que reúne todas as informações trazidas do Afeganistão por Adriana, onde é possível ver também várias fotos que a repórter tirou no país durante a viagem.

A capital do país pode dar a impressão de que as coisas estão sob controle, a despeito da presença do poder policial em toda a parte na expectativa constante de encontrar novos homens-bomba prontos a atacar: “Cabul é a capital afegã, cidade de 4 milhões de habitantes, que concentra também todas as embaixadas, escritórios das Nações Unidas, agências de notícias. Então, essa efervescência toda dá aos visitantes uma certa sensação de segurança. Mas, é claro, é uma sensação falsa porque estamos em um país em guerra.”, contou Carranca com exclusividade ao JE Informa.

O repórter do New York Times, David Rohde, sabe bem o que é ver o medo virar realidade e a situação de caos invadir a vida pessoal, além dos limites que muitos podem querer colocar durante a cobertura jornalística; Rohde, o jornalista afegão Tahir Ludin e o motorista Asadullah Mangal foram seqüestrados pelo Taleban em novembro do ano passado, um mês antes do desembarque de Adriana Carranca.

Na busca por preservar a vida do repórter em poder do grupo afegão, o jornal norte-americano decidiu não dar destaque midiático ao assunto: “Desde os primeiros dias deste calvário, a opinião prevalecente entre a família de David, especialistas em casos de sequestro e oficiais de vários governos, além de outros que consultamos, foi de que tornar público [o sequestro] poderia intensificar a situação de perigo para David e os outros reféns”, disse o editor executivo do N.Y.T., após a fuga do repórter em junho, após sete meses de confinamento, quando todo o caso veio à tona pela grande mídia.

O Taleban (os que estudam o Corão, na etimologia da palavra), grupo político que governou o Afeganistão entre 1996 e 2001, que luta hoje pela retomada do poder, numa guerra constante contra a invasão dos Estados Unidos e da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), representa a ameaça de morte. Já às 21h não é mais possível avistar alguém nas ruas de Cabul, conforme diz a jornalista do Estadão, que narra também a precariedade em que vive a população afegã: “[...] são os afegãos que mais sofrem com esse conflito e com as conseqüências dele, como seqüestros (não apenas pelos taleban, mas motivados pelo dinheiro do resgate, como no Brasil), atentados à bomba etc. Então, à noite, realmente as pessoas se refugiam em casa. Há muitos guardas nas ruas e eles fazem bloqueios para vistoriar os carros em busca de armas e bombas, então, isso é outro fator limitante. Mas, não é só a violência que mantém os afegãos em casa. É também a pobreza. O transporte público é caótico, a maioria não tem carro, o abastecimento de energia elétrica é quase nulo – quando eu estava em Cabul, só havia luz durante 4 horas a cada dois dias – e não há muito com o que se divertir em um país em guerra.”



2009 é ano de eleições presidenciais no Afeganistão; o ocidente apóia a reeleição de Hamid Karzai e o presidente Obama quer estabelecer uma política em que se desenvolva a confiança do povo afegão em relação aos americanos. Os taleban, com seus interesses em jogo, já declararam que aceitam um cessar-fogo durante as eleições, no próximo dia 20. “A guerra lá foi [re]iniciada após o 11 de setembro para caçar Osama Bin Laden.

O que a imprensa ainda não conseguiu esclarecer, e nem os afegãos entendem, é como as mais de 40 nações desenvolvidas, ricas e com armamento de primeira não conseguiram até agora vencer essa guerra contra os taleban. As forças de coalizão caíram em descrédito e seu aliado governo é acusado de corrupção endêmica. Outro fator é que, por muitos anos, e até agora, a ofensiva só teve foco na luta armada e não na aproximação com o povo afegão e muito menos nos esforços de reconstrução do país como prometido.”, relata Carranca.

O destaque dado ao ataque ao World Trade Center realmente colocou o Afeganistão no alvo de curiosidades de muita gente em todos os cantos do mundo, visto que Osama Bin Laden encontrou abrigo entre os taleban, numa associação informal com a Al Quaeda, aproximação esta que serviu de inspirações para as atitudes cada vez mais extremadas do Taleban; os ataques com homens-bomba no centro das maiores cidades são cada vez mais freqüentes no país e a população fica no meio disso tudo: entre o governo estabelecido com o apoio americano e os ataques do grupo extremista.

Culturalmente, aqui nas Américas, pouco se conhece daquele povo; recentemente, virou filme o best seller ‘O Caçador de Pipas’ que mostrou o comportamento dos afegãos frente às adversidades do local, numa história centrada no relacionamento de amizade entre dois garotos afegãos que vivenciaram diversos períodos da guerra no país durante este trinta anos.



Farhad Peikar e Adriana Carranca, durante reportagem no Afeganistão/ Arquivo Pessoal

Jornalistas afegãos como Farhad Peikar cumprem seu papel trabalhando para a imprensa estrangeira. Peikar escreve para o CNN e uma agência de notícias alemã; ele foi o companheiro de Adriana Carranca durante a visita ao Afeganistão, guiando-a e auxiliando-a, já que se para um jornalista pode ser difícil trabalhar naquele país, imaginem para uma mulher. Permanece o hábito do uso da burca entre as afegãs, mas as estrangeiras poderem andar livremente pelas ruas sem utilizar do adereço, embora seja preferível a jornalistas que queiram passar despercebidas, facilitando seu trabalho, confundindo-se com as mulheres do país.

Outros jornalistas vem desenvolvendo um trabalho de luta constante pela informação, talvez neste campo, pelo menos, as coisas tenham evoluído em relação ao tempo do governo taleban.

Socialmente falando, entretanto, vê-se que muita coisa não mudou durante esse tempo; a jornalista Ana Paula Padrão, relata em seu site, sobre sua ida ao Afeganistão em 2001: “Os sequestros tem sido frequentes, postos policiais já estão em toda a parte, e a insegurança volta a dominar a cidade. [...] Foram 12 dias de trabalho muito sofrido. Naquele momento, era impossível registrar a derrocada talibã sem dividir com o povo afegão as privações do pós-guerra. Deixei o país abatida, exausta e muito magra.”

E Adriana Carrana, recém chegada: “Hoje, a situação dos afegãos é muito pior do que nos tempos do taleban, porque além de toda a miséria que já estava lá, a violência é maior, sem dúvida. [...] Enquanto os estrangeiros estão lá fazendo uma guerra contra um inimigo que ninguém mais sabe quem ou o que é, os afegãos ainda travam uma batalha diária simplesmente para ter o que comer. A expectativa de vida no país é de 40 anos.”.



Inúmeros são ainda, os casos de seqüestros e mortes de jornalistas que arriscam a vida numa jornada que sabem, pode ser sem volta, simplesmente por andar em solo afegão. Hoje ainda sofrem diariamente pessoas atingidas por minas terrestres e o número de amputados é grande. Talvez não haja em qualquer outro lugar do planeta um lugar com tamanha gama de adversidades e empecilhos ao desenvolvimento da notícia, mais pela falta de condições de sobrevivência do que qualquer outra maneira de se impedir o trabalho do repórter. Os veículos de comunicação brasileiros não tem correspondente fixo no Afeganistão e vez ou outra algum jornalista aceita o desafio de passar um período ali para buscar retratar aquela realidade vivenciada temporariamente.

Atualmente, o jornalista Igor Gielow é o enviado da Folha de S. Paulo ao país e relatou no último sábado, dia 15, como foi o ataque Taleban em Cabul que resultou na morte de 7 pessoas e deixou quase uma centena de feridos: “Tudo tremeu com a onda de choque, janelas, móveis. Literalmente é possível sentir o deslocamento de ar da explosão passar em torno de você.”. O risco é constante. O número de abstenções nas eleições do dia 20 pode ser grande após este ataque, mesmo com a declaração de cessar-fogo, tendo em vista que nunca se sabe quais as reais intenções dos líderes do Taleban.



Ana Paula Padrão, nas montanhas em Cabul, em 2001 / Site Ana Paula Padrão


Internacionalmente, há a busca cada vez maior em se desenvolver a notícia: “Com a escalada da violência, as empresas de comunicação procuram manter o menor numero possível de jornalistas estrangeiros no país, o que é bom para os afegãos porque lhes garante emprego. Pelo menos, isso. Agora, o povo afegão, em geral, não tem acesso a nada.”, acrescenta Carranca, ao JE. De seu ponto de vista, a solução para a problemática social no país poderia estar no investimento direcionado em melhorias à população afegã; “Levar ao povo infra-estrutura, escolas, assistência à saúde, qualidade de vida, a possibilidade de troca entre culturas, emprego. Até os taleban se renderiam aos benefícios. Porque, veja, quem são os taleban? São filhos de refugiados do regime soviético retirados de suas famílias e criados isoladamente em escolas religiosas. Essas pobres crianças são, hoje, os temidos líderes dos taleban!”.

Trabalhar no Afeganistão, seja qual for a profissão, é sempre um desafio. Buscar relatar os fatos então é sempre a vivencia angustiada do repórter que quer dar voz aos dois lados da notícia, já que é inacessível, hoje, a conversação pacífica com os líderes de um dos lados desta guerra atual, mesmo após tantos anos. Já há uma geração de pessoas que não sabem o que é viver em paz, que não entendem o motivo de tantos e constantes conflitos e muitas das vezes nem procuram entender, pois não conhecem outra realidade. No meio disso tudo, o jornalista tem que fazer verdadeiro trabalho investigativo na tentativa de passar os fatos além do que é barrado, sobretudo, pelo instinto de sobrevivência.

+Conteúdo
[]Entrevista na íntegra com Adriana Carranca

[]Especial do Afeganistão no portal do Estadão

[]Relato de Igor Gielow na Folha

[]Veja o perfil da entrevistada para essa reportagem


quarta-feira, 12 de agosto de 2009





As frases acima são de dois jornalistas. Os dois sul-americanos. Os dois em regiões próximas, no Oriente Médio. As coincidências acabam por aí. O primeiro relato, do jornalista Marcos Losekann, com exclusividade ao JE Informa, conta sobre seu sequestro pelo Hizbollah, grupo político-militar libanês, em 2008. O segundo relato, da jornalista argentina Tamara Lalli, para uma rádio californiana, descreve seu o sequestro pelo Mossad, o serviço de inteligência de Israel, também no mesmo ano. Num território minúsculo a dificuldade do trabalho da imprensa torna-se enorme por inúmeros fatores. Que comecemos a falar do assunto, sem qualquer estereótipo no qual o jornalismo, no Oriente Médio, é coibido por apenas um único lado.


Por Fernando Galacine
editor do JE em São Paulo


Em todo o Oriente Médio, calcula-se que trabalhem cerca de 400 jornalistas estrangeiros, boa parte deles em Israel e nos chamados Territórios Palestinos Ocupados. O grande boom de jornalistas na região aconteceu no início dos anos 90, ali próximo, para a cobertura da Guerra do Golfo, no Kuwait, com a transmissão um tanto mais fácil de informações por satélite. O Brasil, apesar de ter realizado com imprensa própria a cobertura da guerra, não manteve durante muito tempo repórteres fixos na região. Apenas na metade desta década, com a ajuda de transmissão banda larga, é que os veículos de comunicação brasileiros apostaram em cobertura própria no Oriente Médio, em gradativa substituição dos serviços noticiosos internacionais.

Um dos primeiros repórteres brasileiros que representou essa retomada da imprensa do país na cobertura do Oriente Médio foi o jornalista Marcos Losekann.Correspondente da TV Globo em Londres desde 2000, Losekann aceitou o convite de tornar-se o primeiro correspondente de uma emissora brasileira de TV aberta no Oriente Médio, em 2004. O jornalista já levava na bagagem a experiência de ter trabalhado na Amazônia brasileira, cobrindo desde abates de avião de garimpeiros na selva _com direito a perseguição pelo exército venezuelano_ a coberturas políticas sobre candidatos supostamente corruptos, o que levaram o jornalista a receber uma série de ‘recados’.

Talvez por essa razão, Losekann não tenha demorado muito a embarcar rumo a Jerusalém, mesmo com vários locais da região ainda sob as consequências da segunda Intifada_ palavra de origem árabe que significa ‘revolta’, nesse caso de parte da sociedade árabe contra Ariel Sharon, ex-primeiro-ministro israelense_ iniciada em 2000. “É evidente que a cobertura de uma guerra, bem como da intifada gera uma exposição muito grande do jornalista ao perigo, mas pelo menos numa região de conflito a gente sabe onde está esse ‘’perigo’’, sabe quem está atirando em quem... Eu costumo dizer que [...] eu jamais vivi perigo maior do que vivem os colegas que cobrem um tiroteio num morro do Rio ou na periferia de São Paulo, de Brasília, de Belo Horizonte...” conta o jornalista.


Marcos Losekann no início da coberura da guerra no sul do Líbano/Arquivo Pessoal


Losekann tem motivos para afirmar isso. Apesar da fama de ser um local violento para a imprensa_a foto acima passa essa sensação_ dos 127 jornalistas mortos em trabalho no mundo todo, em 2007, apenas um morreu na Palestina. Nenhum em Israel. O número é idêntico às mortes de jornalistas no Brasil ou Estados Unidos. O motivo da fama de local hostil vem da generalização do Oriente Médio como um todo. No ano passado, segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras, das 68 mortes de jornalistas, no ano passado, 16 delas aconteceram no Oriente Médio, a maior parte, portanto. Mas 70% dessas mortes ocorreram exclusivamente no Iraque, local com rara presença da mídia sul-americana.

Mesmo com argumentos que indicam uma relativa calma diante do novo local de trabalho, Marcos Losekann passou por um treinamento intensivo de sobrevivência em situações de risco, administrado por uma empresa de segurança de origem anglo-americana, a Centurion. A empresa é uma das várias especializadas em treinamento de resistência largamente utilizadas por jornalistas do mundo todo. Em seu site, há mapas que possibilitam o visitante descobrir as avaliações dos riscos de segurança feitas pela corporação a todos os países do mundo.

[Veja as avaliações de Israel, Palestina, Brasil e EUA, em inglês]

Trabalho parecido tem a CAECOPAZ, sigla em castelhano, para Centro Argentino para Treinamento Conjunto para a Paz. Nesse centro militar, perto da capital Buenos Aires, há treinamento quase exclusivo para jornalistas sul-americanos que deverão ser enviados para coberturas no Oriente Médio, em especial ao Líbano, Síria, Israel e Cisjordânia, nações de maior interesse para a América do Sul. O motivo da importância da cobertura desses países pela imprensa do continente é simples: as comunidades israelita e árabe são muito fortes em toda a América Latina. No Brasil, por exemplo, há cerca de sete milhões de pessoas com algum tipo de descendência libanesa. È um número maior do que a população do próprio Líbano. Irã, Iraque e outros países que integram o Oriente Médio interessam mais à mídia européia e norte-americana que mantêm tropas militares nesses países.



O kit acima não inclui um fuzil M-16, de fabricação norte-americana, mas esse era justamente o artigo que o jornalista Carlos Reiss, famoso na internet brasileira pelo seu ‘Blog do Bean’ não poderia desfazer-se de modo algum _sob o risco de pegar sete anos de cadeia caso o perdesse. Com nacionalidade brasileira e outra israelita, Reiss serviu a Tzavá, o exército israelense durante seis meses, em 2006. Obrigação comum a todos os que tem cidadania do país, sejam eles homens ou mulheres, o exército israelense é similar ao que o vestibular é para os jovens hoje em dia. “O Exército em Israel é o espelho para uma série de aspectos culturais fortíssimos que refletem em todo o resto da sociedade. Alguém que não serviu [o exército] não possui o mesmo grau de inserção na sociedade em relação àqueles que serviram. Dentro do exército tentei absorver o mínimo de aspectos militares e o máximo no que diz respeito à bagagem cultural”, diz Reiss ao JE Informa.

O jornalista serviu as forças armadas israelenses exatamente na mesma época na qual mísseis e tiros cruzavam o sul do Líbano e o norte de Israel. Era o conflito envolvendo tropas israelitas e tropas ligadas ao Hizbollah, partido político libanês.


Carlos Reiss dentro da boleia do caminhão que dirigiu por vários dias dentro do território israelense/ Arquivo Pessoal

Losekann e Reiss ficaram sempre muito próximos ao exército israelense_ cada um com sua especificidade, durante os combates. Enquanto Losekann, na maior parte das vezes, estava com as tropas de combate ao norte de Israel, Reiss estava longe dos conflitos, mas ainda assim servindo numa base militar mais ao sul do país. No entanto, a convivência com o exército israelense não garantiu aos dois jornalistas facilidade para as informações que cada um desejava. O correspondente da Globo encontrava enorme dificuldade de atravessar a fronteira com o Líbano e Reiss, mesmo fazendo parte do exército, não conseguiu, por exemplo, entrevistar o seu próprio comandante para uma rádio brasileira.

Em termos, a organização na divulgação das informações por parte do governo israelense ajuda a diferenciar a cobertura na região e acaba tornando-se, indiretamente, um dos grandes responsáveis pela dificuldade do trabalho jornalístico isento.

As diferenças

“Na maioria das matérias sobre o conflito há duas partes em luta: as Forças de Defesa de Israel de um lado e os palestinos de outro. Quando um incidente violento é relatado, as FDI confirmam ou o Exército diz, mas os palestinos alegam. [...] Mas quem são os palestinos? [...] Por que tão raramente há um nome, um departamento, uma organização ou uma fonte dessa informação? Será porque isso lhe daria um aspecto mais confiável?”

O trecho acima faz parte do artigo assinado pelo jornalista Yonatan Mendel, parte da edição de maio do ano passado da revista Piauí.

“Em Israel, não há um dia sequer que a liberdade de imprensa não seja reverenciada. Mas quando o assunto é segurança nacional, tudo muda de figura. É a paranóia desse discurso da segurança, que em Israel é gigantesco, vence eleições e derruba governos. Afirmam categoricamente que Israel nunca seqüestra. Israel detém. Que Israel nunca mata ninguém intencionalmente. Dizem que palestinos foram atingidos. Que Israel nunca ataca. Sempre responde a um ataque” afirma Carlos Reiss, que morou quatro anos em Israel, sobre a imprensa do país.

O debate sobre a imparcialidade do jornalismo israelense e árabe sobre questões internas, apesar de importante, será sempre discutível, nunca pontuado. Afinal, em cada lado das fronteiras há a defesa de uma versão da história, a enfatização do que é mais importante para o público de cada país.

Porém, quando os moldes desse tipo de cobertura passam a ser utilizados também pelo jornalismo internacional, criam-se riscos para o trabalho da imprensa estrangeira na região. E a tentação de utilizar versões dos fatos mais adaptáveis aos padrões israelenses não vem somente pela influência política da pequena nação encravada no deserto sobre as potências européias e aos Estados Unidos.

Vem principalmente da orquestrada organização que Israel criou para a divulgação da notícia pelas suas fontes, com o máximo de otimização. Hoje, quando um jornalista liga para a assessoria de imprensa do exército israelense ele é redirecionado para uma espécie de triagem que pergunta de qual país é o veículo para o qual ele trabalha. Com a resposta em mãos, o exército israelense direciona o jornalista para diferentes alas de sua assessoria, uma para cada região do planeta. Se o jornalista em questão for brasileiro, por exemplo, ele é direcionado para a central da América Latina e assim por diante. O resultado é a liberação de informações condizentes com a política diplomática de Israel em cada região do mundo e uma facilidade impressionante para entrevistas, releases e qualquer outro material informativo que o jornalista quiser. Um atrativo e tanto para editores no mundo inteiro que, se tentarem contato com representantes de vários setores na Palestina, terão uma cansativa espera até chegar à pessoa certa.



Junte a toda essa facilidade, uma característica de alguns setores da sociedade israelense de rotularem de anti-semita qualquer órgão de imprensa que divulgue uma notícia não muito bem avaliada pelos critérios israelenses. Israel conta com tecnologia tão avançada na disponibilização e disseminação de informações a seu favor que até mesmo um software é usado para fazer ‘bombar’ na internet notícias positivas à comunidade israelita. O Gyus.org oferece uma ferramenta que possibilita, ao internauta que baixá-la em seu computador, ter acessos instantâneos às mais recentes postagens e enquetes sobre Israel em qualquer site do mundo, permitindo com que o internauta participe_ muitas vezes sem ao menos ter domínio do idioma da página visitada_ e altere resultados de votações ou comentários em reportagens sobre o país. No começo do ano, a BBC foi obrigada a retirar uma enquete do ar, devido ao ataque da legião de soldados virtuais pró-Israel.

Nunca é demais, porém, enfatizar que, cada veículo de comunicação tem o dever de ser plural, mas quando não o é, deixar claro sua posição. Ser pró-Israel, ou pró-palestino, _como parece ser uma tendência para partidos políticos com bases socialistas, mais interessados em fazer oposição aos EUA, do que apoiar a própria causa que dizem defender_ é um direito. Mas, necessariamente, precisa ser divulgado, repassado ao público. E, necessariamente, respeitado pelas autoridades de qualquer região do planeta, em especial as israelenses e palestinas.



O resultado do não cumprimento de um princípio que deveria ser comum é uma imprensa quase automatizada a reportar assuntos sob determinada ótica, o que gera retaliações à imprensa internacional, seja por grupos armados ligados aos dois dos três grandes partidos políticos da região, Hizbollah e Hamas ou o serviço de inteligência do exército israelense, que veem jornalistas estrangeiros quase sempre como uma ameaça. “No Oriente Médio a perseguição é totalmente ligada à ideologia. Regimes fechados [...] não toleram críticas, não toleram a imprensa estrangeira, não aceitam um olhar de fora... E, ao primeiro impasse, eles decidem banir a presença de correspondentes. Já os terroristas, esses partem pra agressão, mesmo. Geralmente sequestram jornalistas para exigir alguma vantagem em troca ou os executam para exibir força” comenta Marcos Losekann.



Em suma, o trabalho da imprensa em Israel e Palestina, grandes protagonistas do Oriente Médio para a imprensa sul-americana, se tornará mais seguro quando jornalistas passarem a buscar o outro lado da história, contextualizar a informação, mostrar mais humanidade. Num território minúsculo, a dificuldade do trabalho da imprensa torna-se enorme por inúmeros fatores. Que comecemos a falar do assunto, sem qualquer estereótipo no qual o jornalismo, no Oriente Médio, é coibido por apenas um único lado.

+Conteúdo
[]Assista ao vídeo com o perfil dos entrevistados para essa reportagem




[]Leia entrevista na íntegra com Marcos Losekann
[]Leia entrevista na íntegra com Carlos Reiss
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